013 – Quando a igreja é uma

Nunca antes na história do cristianismo foram vistas tantas denominações diferentes autodenominadas cristãs. Isso até poderia ser uma boa notícia, não fosse a grande maioria delas terem surgido por ocasião de cisões, conflitos internos e políticos. E mais além, mesmo dentro de uma denominação, e até ainda em uma igreja local é possível perceber muralhas dividindo pessoas e gerando conflitos que só atrasam a expansão do Evangelho. No salmo 133, Davi expressa a alegria de um rei que pôde ver o seu povo unido, trazendo duas ilustrações que revelam o que ocorre quando a família de Deus está caminhando em unidade.

Contexto

Cremos que no calendário de Davi, ao compor o Salmo, vinha anotado suas recentes conquistas territoriais, suas vitórias diante dos inimigos internos e externos, e o controle total e a pacificação de todo o vasto território de Israel, alcançando assim uma pax israelita. Ele deve ter escrito este salmo ao ouvir o que relata 2a Sm 5.1 “Então, todas as tribos de Israel, viram a Davi, a Hebrom, e falaram, dizendo: somos do mesmo povo de que tu és” (RA). Davi traz não só a unidade política mas a unidade espiritual do povo de Deus, quando restabelece o culto em Jerusalém. Saem caravanas em peregrinação, todas as 12 tribos, de suas regiões, com suas comidas típicas, suas bandeiras, seus heróis próprios, cantam este salmo cada um com seu sotaque, unidos sob um único Deus, quando se encontram na grande praça de Jerusalém.

Portanto, duas coisas não são a unidade da qual estamos falando: esta unidade não é ajuntamento, não é geográfico, nem cultural, mas sim cardiológica, do coração, é espiritual, é teológica, é a unidade em torno de Deus preservando as diferenças. Quantas vezes não vemos igreja grande, igreja cheia, mas entre os bancos há muralhas rígidas, intransponíveis pelo próximo. Isso não é unidade.

Também, unidade não é ecumenismo, não é decretar paz com o inimigo, nos juntar harmonicamente e com aceitação daquilo que a Deus enoja. Antes de Davi unir o povo ele destruiu os templos e os adoradores pagãos. Não entrou em paz com os demônios, pois é união em torno de Deus e não em torno do homem.

O paladar de Deus na unidade:

“Como é bom e agradável quando os irmãos convivem em união!” v.1

O primeiro versículo do salmo mostra que é bom e agradável a unidade do povo de Deus. Interessante a utilização do bom e do agradável, adjetivos tirados do paladar de Deus. Deus achou muito bom quando terminou e viu sua criação (Gn 1.31), e considerou aroma agradável os sacrifícios do seu povo a ele. Assim, a unidade do povo é bom para Davi, é bom para o povo e principalmente é bom e agradável para Deus. Deus gosta da unidade. Deus detesta a facciosidade, a rebeldia. Não é a toa que ficasse feliz pois a história humana até ali estava marcada pela desunião. A começar pela desunião espiritual, entre homem e Deus: “Ouvindo o homem e a mulher os passos do Senhor Deus (…) esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim” (Gn 3.8). Em seguida, a desunião matrimonial, entre Adão e Eva: “Foi a mulher que me deste por companheira” (Gn 3.12). Depois a desunião fraternal, entre Caim e Abel: “Sou eu o responsável por meu irmão?” (Gn 4.9), e finalmente a falência da comunidade, abominada por Deus em Gn 6.

Nem mesmo o povo escolhido por Deus vivia em união. É só pensar em Abraão e Ló, Esaú e Jacó, nos 10 filhos de Jacó e José, no povo do deserto, o povo estabelecido no tempo de juízes e por aí em diante. A história de toda a humanidade é marcada por guerras e conflitos, e mesmo o povo de Deus não foge a esta regra. Mas diz o texto que é bom e agradável quando o povo foge a esta regra demoníaca e se arma com a unidade.

As bênçãos de Deus na unidade:

Na sequência, Davi nos mostra duas comparações de como a unidade do povo é abençoada por Deus.

a) Na unidade Deus se agrada de seu povo.

“É como óleo precioso derramado sobre a cabeça, que desce pela barba, a barba de Arão, até a gola das suas vestes” v.2.

A imagem colocada no texto é a da unção do sumo sacerdote. A unção do sumo sacerdote representa a sua separação para o serviço de Deus e ao mesmo tempo, a separação do povo de Deus, santificando-os. Em Ex 30.28, “você os consagrará (com o óleo) e serão santíssimos, e tudo o que neles tocar se tornará santo” (NVI). A unção representa o serviço sacerdotal, a expiação dos pecados do povo e sua santificação. A beleza da imagem do óleo escorrendo sobre a barba descendo sobre seu peito é melhor entendida quando nos lembramos, conforme indica Ex. 28.17-21, que no peitoral da estola sacerdotal há quatro fileiras de três pedras representando cada tribo de Israel, assim, conforme o óleo escorre por todo o corpo do sacerdote, ele unge e santifica o sacerdote e todas as 12 tribos.

Esta imagem prefigura o sacerdócio de Cristo expiando o pecado de seus eleitos em todas as nações da terra. Em Atos 2 parece vermos situação semelhante quando o óleo precioso de Cristo, seu Santo Espírito, é derramado sobre os diferentes povos que ouvem a pregação de Pedro, e ali o povo eleito restaura a unidade em Deus, em Cristo Jesus, tal como pintinhos acolhidos sob as asas da sua mãe (Mt. 23.37-39).

Quando o povo está em unidade em Cristo Jesus, este povo recebe bênçãos espirituais e o seu louvor sobe a Deus como aroma agradável. Porque o sangue de Jesus foi derramado, este óleo precioso será derramado sobre todas as nações.

b) Na unidade Deus prospera seu povo.

“É como o orvalho do Hermom quando desce sobre os montes de Sião. Ali o Senhor concede a bênção da vida para sempre” v.3.

O monte Hermom está no extremo norte de Israel. Seu pico é coberto de neve e em determinadas épocas esta neve escoa em orvalho, tornando fértil toda a região ao seu redor. Os montes de Sião, por outro lado, estão próximos ao deserto, no sul de Israel. Uma região seca e sem vida. O que une a ambos é o rio Jordão, que nasce próximo ao Hermom e desce até Sião, serpenteando por todo o território israelita. Quando as geleiras da alma são derretidas, o orvalho desce, o óleo precioso desce, o Espírito Santo desce, e a terra reverdece, frutifica e o povo prospera. Os campos ficam verdes e o deserto ganha vida, vida para sempre!

Se eu fosse o diabo, antes de arquitetar qualquer coisa contra a igreja, a primeira coisa que eu faria seria atacar sua harmonia, sua unidade, criando facções, destruindo casamentos, amizades fraternas, tirando a união da comunidade. Por outro lado, se eu fosse o diabo e passasse por uma igreja unida espiritualmente em Cristo, com suas geleiras derretidas e seus desertos orvalhados, trataria de sair de perto, fugiria para longe, pois não há nada mais poderoso sobre a terra que a igreja de Jesus unida, porque ela é santificada por Jesus Cristo e se estende por toda terra. A igreja unida, sob o poder de Deus, derruba as muralhas do Inferno, alarga as fronteiras do evangelho, quebranta corações, transforma sociedades, glorifica a Deus.

Todos juntos no encontro final

Na animação infantil Monstros S/A, da Pixar, há uma cena ilustrativa. O Sullivan, o monstro de figura paterna, sente saudades da Bu, o bebê humano que conheceu através da porta que unia ambos os mundos. Por questões que só dizem respeito ao filme, a porta foi estilhaçada em milhares de pedacinhos e como recordação, o Sullivan guardou um destes pedacinhos. Para surpresa do amigo, Mike mostrou a ele a porta da Bu cheia de ranhuras, mas inteirinha remontada, faltando apenas um único pedacinho para a porta se abrir. Jesus Cristo está unindo o seu povo por todo o mundo trazendo para si gente de todas as tribos, línguas e nações, e cremos que Cristo não deixará que nenhum pedacinho da igreja falte, só quando todos os eleitos receberem a Cristo como seu Senhor a igreja estará completa, e a porta para o encontro com o Pai se abrirá de uma vez por todas.

Sullivan agradeceu ao amigo o esforço em montar a porta, e o amigo mostrou suas mãos marcadas, cheias de esparadrapos, devido ao trabalho que deu juntar os cacos. Diz o texto bíblico que Davi também sujou as mãos de sangue para manter o povo unido. Não foi fácil para Davi unir Israel e não foi barato para Cristo unir o seu povo. Ele tem suas próprias mãos marcadas de sangue por causa disso. Se você anda disseminando discórdia, se organizando em facções dentro do corpo de Cristo, lembre-se que Cristo sangrou suas mãos para ajuntá-lo.

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