A espada de Dâmocles

A lenda de como o rei Dionísio de Siracusa ensinou o invejoso Dâmocles sobre os perigos do poder



Dionísio I, tirano de Siracusa

A história da espada de Dâmocles foi contada pelo historiador grego Timeu (356-260 a.C), mas chegou até nós devido a uma citação feita filósofo romano Cícero (106-43 a.C), em sua obra chamada Tusculanae Disputationes. 

Ela conta como Dâmocles aprendeu uma grande lição sobre a vulnerável fortuna do poder, a partir de uma traiçoeira brincadeira feita pelo seu monarca Dionísio.

Dionísio viveu entre 430-367 a.C na Sicília e teve origem humilde. No entanto, viu sua sorte mudar na guerra contra Cartago, quando teve a oportunidade de salvar Siracusa do domínio estrangeiro e tornar-se o seu monarca, que na época era a cidade-Estado mais rica da Sicília.

Mesmo assim, os anos seguintes não foram fáceis. Dionísio governou Siracusa com mão de ferro, em constante guerra contra Cartago. Fortificou a cidade, derrotou os inimigos e ocupou as cidades vizinhas. Teve ainda um segundo confronto com Cartago em 397 a.C, e depois em 392 a.C, saindo vitorioso de ambos os confrontos.

Entre essas vitórias e batalhas, aproveitava-se de seu reino com banquetes e festas, cercado de prata, ouro, mulheres esbeltas e finos banquetes.

Na corte de Dionísio havia um homem chamado Dâmocles que, vendo todo o luxo e as iguarias que cercavam o monarca, vivia a dizer, com indisfarçada inveja:

– Que grande sorte tem o rei! É servido de belas mulheres, de prata, de ouro e das melhores iguarias. O rei tem tudo o que pode desejar.

Assim, sempre que o rei voltava da guerra, de conter revoltas, de administrar o reino, sentava-se em seu trono, servia-se a si mesmo com um grande banquete e ouvia de Dâmocles:

– Que grande sorte tem o rei! É servido de belas mulheres, de prata, de ouro e das melhores iguarias. O rei tem tudo o que pode desejar.

“Não mereço assim tanta sorte”

Certa vez, no entanto, o tirano de Siracusa encheu-se da bajulação invejosa, e propôs a Dâmocles:

– Nesta noite mesmo trocaremos de lugar. Você sentará no trono e será servido do banquete real.

Dâmocles ficou muito empolgado com a notícia.

Chegada a noite, como prometido, Dâmocles sentou-se no trono real e, a pedido de Dionísio, foi servido com prata e ouro, por mulheres esbeltas, das mais finas iguarias. Dâmocles regalou-se, e o tirano, ao seu lado, disse:

– Que grande sorte tem o rei! É servido de belas mulheres, de prata, de ouro e das melhores iguarias. O rei tem tudo o que pode desejar.

Foi nesse momento que Dâmocles tomou um grande susto! Quando olhou para cima de sua cabeça, viu uma espada dependurada, mirada em seu pescoço, segura apenas por um fio de crina de cavalo.

– Que é isso, quem colocou essa espada em cima do trono do rei?

Então, Dionísio explicou para Dâmocles que via aquela espada todos os dias. Deste modo, o rei fez saber a Dâmocles dos perigos do poder. Em qualquer momento, o reino poderia ser invadido, a população poderia se revoltar, ou uma grande tragédia poderia acometer a cidade. Enquanto Dâmocles só via os banquetes, aquele que se senta no trono tinha que estar sempre vigilante, com uma espada pronta para desabar em seu pescoço.

A partir daquele momento, Dâmocles não conseguiu mais aproveitar tranquilo o banquete, nem as belas mulheres, e deixou o trono, dizendo:

– Deixe estar, meu rei, não sou digno desta grande sorte do rei, do ouro, das mulheres e das iguarias…

E assim, Dionísio legou o ensino sobre a falsa segurança dos governos, que mesmo diante de banquetes, estão sempre com uma espada de Dâmocles apontando para seu pescoço.

Em 383 a.C, Dionísio entrou em guerra novamente contra Cartago e foi severamente derrotado, sendo obrigado a entregar parte de seus territórios e a pagar tributos ao inimigos.