Excalibur

As histórias tradicionais de como o Rei Arthur conquistou sua poderosa e famosa espada, Excalibur



O rei Arthur foi um lendário líder britânico popularizado através de centenas de histórias medievais e romances de cavalaria. Suas histórias possuem diversas tradições e as primeiras menções a Arthur remontam a manuscritos em latim de monges celtas, e a um poema galês escrito por volta de 600 d.C. A história se popularizou ainda mais através da obra “História dos Reis Britânicos”, escrita por Godofredo de Monmouth, em 1138.

Uma das histórias mais conhecidas do rei Arthur se refere à conquista de sua poderosa Excalibur, sem a qual o rei bretão não seria tão carismático. Essa espada é conhecida como Excalibur.

Excalibur é chamada no galês de “caledfwlch”, e no dialeto da Cornualha de “calesvol”. Já em bretão ficou “kaledvoulch”. Foi Godofredo que latinizou o nome da espada, para “Caliburnus”, que significa simplesmente “aquela que corta o aço”. No francês antigo ficou “escalibor”, daí chegando a nós como Excalibur.

Trecho da animação “A espada era a lei”, da Disney

A espada é associada a outra espada, a “caladbolg”, uma espada da mitologia irlandesa que parece ter sido a inspiração para a lenda de Arthur.

Como já dissemos, há diversas tradições para as histórias de Arthur, e há pelo menos duas histórias mais populares em torno da conquista de Excalibur pelo rei.

A versão mais popular, a versão que diz ser Excalibur aquela que foi retirada da pedra, remonta às histórias de Arthur do chamado Ciclo Lancelot-Graal, um conjunto de histórias escritas entre 1140-1210. Foi essa a versão que inspirou a versão escrita pelo inglês T.H.White, de 1938, e que inspirou a animação da Disney “A espada era a lei”, de 1963.

Já nas histórias do Ciclo Pós-Vulgata, escritas entre 1230-1240, Excalibur seria uma outra espada, e não a que foi retirada da pedra.  Ela teria sido entregue a Arthur pela Senhora do Lago, e foi essa a versão que inspirou a versão do americano Howard Pyle, escrita em 1903.

É essa versão de Howard Pyle que iremos contar aqui.

A espada retirada da pedra

cena do filme “Rei Arthur”, 2017

A história narrada pelo americano Howard Pyle possui as duas versões de espadas, no entanto, a Excalibur é somente aquela que foi entregue pela Senhora do Lago, que contaremos a seguir.

Arthur seria o filho do rei Uther Pendragon, soberano de toda a Bretanha. O famoso mago Merlin teria predito a morte desse rei quando Arthur ainda era um bebê, e aconselhou ao rei a esconder a criança, prevendo que o trono vacante colocaria o bebê em sérios riscos.

A verdadeira catedral da Cantuária

Daí que aconteceu exatamente como Merlin previra: o rei morreu e o reino passou por diversas tentativas de tomada de poder. Se Merlin não tivesse escondido o bebê, Arthur certamente não teria sobrevivido.

Alguns anos depois, o reino ainda vivia em grande crise. O arcebispo da Cantuária confidenciou a Merlin sua preocupação com o reino, mas o mago consolou o religioso de que logo logo um rei justo e legítimo subiria ao trono.

– Merlin, como podemos garantir que um rei legítimo suba ao trono da Bretanha? Teria o soberano Uther Pendragon deixado algum herdeiro?

–  Arcebispo, atente para o que direi. De frente à igreja, surgirá uma pedra. De cima da pedra, uma bigorna, e da bigorna uma poderosa espada. A espada estará cravada até o meio nesta bigorna de tal modo que nenhum outro homem será capaz de retirá-la, exceto o legítimo rei da Bretanha.

Assim, de frente à catedral da Cantuária, Merlin fez surgir uma imensa pedra de mármore quadrada. Então, de cima da pedra, fez surgir uma bigorna, e na bigorna, uma esplêndida espada de aço azulado e extraordinariamente brilhante. A espada estava encravada na bigorna e na pedra até a metade. Ao redor da espada, estava escrito em ouro:

“Aquele que esta pedra da bigorna arrancar
verdadeiro rei-nato da Inglaterra será”

cena do filme “Rei Arthur”, 2017

A história se espalhou por toda a Bretanha e pelos reinos vizinhos. Muitos poderosos príncipes e nobres e cavaleiros vieram tentar a sorte, mas nenhum deles moveu sequer um milímetro a espada a bigorna. Depois de algum tempo, diminuíram as tentativas, e a história foi esquecida.

Certa vez, próximo ao natal, o arcebispo da Cantuária convocou um torneio, razão pela qual vieram muitos cavaleiros e nobres para Londres.

Entre esses cavaleiros que chegaram a Londres, veio Sir Ector com seus dois filhos. O primeiro, um hábil cavaleiro chamado Sir Kay, e seu irmão mais novo, que servia-lhe de escudeiro, o jovem com então 18 anos, Arthur.

O torneio era uma série de batalhas encenadas para diversão, em que os cavaleiros se lançavam a lutas de espadas ou lanças, a cavalo ou a pé, a fim de conquistar glória. Sir Kay decidiu entrar para uma dessas batalhas do torneio e foi muito bem. No entanto, em certo momento, enfrentou um poderoso oponente que acabou quebrando sua espada.

– Corra, Arthur – ordenou Sir Kay, bastante maltratado pelo oponente – vá buscar uma espada que possa substituir a que perdi.

Arthur, sabendo que seu irmão era muito ranzinza e orgulhoso, correu para a hospedaria para conseguir uma espada, mas ela estava fechada, pois todos estavam no torneio. Arthur correu de um lado para o outro, mas a cidade estava vazia.

Então, de repente, seus olhos se dirigiram àquela espada brilhante fincada na pedra, de frente à catedral de Cantuária.

“Aquela espada deve servir!” pensou o jovem.

Arthur correu para perto dela e, sem cerimônias, como se estivesse segurando qualquer espada, a arrancou com facilidade, e correu de volta ao torneio.

– Arthur – disse espantado Sir Kay, quando viu a espada – onde você conseguiu essa espada?

– Ela estava fincada em uma bigorna, em frente à catedral.

Sir Kay sabia da história da espada e, por isso, anunciou ao pai e a todos que ele mesmo havia arrancado a espada.

Mas a farsa não durou muito tempo. Todos no torneio ficaram admirados, mas duvidaram de Sir Kay. Assim, o cavaleiro teve de colocá-la de volta na bigorna, para arrancá-la novamente aos olhos de todos.

E quem disse que ele conseguiu?

Assim, a ambição pela espada reviveu novamente em todos que estavam no torneio, e todos tentaram arrancar a espada da pedra, sem sucesso.

Finalmente, Arthur se apresentou para arrancá-la e, aos olhos escandalizados de todos, empunhou a espada e a tirou da pedra, não uma ou duas, mais várias vezes, para espetáculo de Londres.

Foi assim que Arthur reivindicou o reino da Bretanha, como legítimo herdeiro do trono, e foi descoberto que Arthur era o bebê de Uther Pendragon, escondido por Merlin.

Para algumas tradições, essa é a história de como Arthur conquistou sua famosa Excalibur. Mas outras tradições contam ainda sobre uma segunda espada de Arthur, e que essa segunda seria a Excalibur. A história de como ele a conseguiu é a que contaremos a seguir.

A espada retirada do lago

A dama do lago e a Excalibur de Arthur, por Alfred Kappes, 1880

A segunda tradição sobre como Arthur conquistou a Excalibur não exclui a história da espada na pedra. Somente diz que a lendária Excalibur seria outra espada.

Certa vez, quando Arthur já era um respeitado rei na Bretanha, chegaram a ele histórias de um perverso cavaleiro negro que havia humilhado diversos de seus cavaleiros. Diante de tamanha afronta, o rei decidiu derrotar esse terrível cavaleiro.

Pegou seu cavalo e sua espada e seguiu para dentro da floresta. Antes de chegar ao castelo indicado por aqueles que haviam enfrentado o cavaleiro negro, avistou alguns homens maus perseguindo um ancião, e logo Arthur decidiu proteger o ancião.

Aproximou-se deles com o seu cavalo, apontou sua espada e os botou para correr. O que Arthur não sabia era que o ancião era Merlin. A partir daí, Merlin o seguiria nesta aventura, e isso faria toda a diferença.

Os dois homens finalmente chegaram de frente a um castelo solitário, com uma torre alta e negra. De frente ao castelo, havia uma macieira repleta de escudos dos cavaleiros que haviam sido derrotados, além de um grande escudo negro, com os dizeres:

“Aquele que golpear este escudo
fará por sua própria conta e risco” 

cena de “Monty Python e o cálice sagrado”

Conforme havia sido orientado, Arthur golpeou o escudo e viu sair do castelo um cavaleiro temível, todo vestido de uma armadura negra, com um cavalo em que até os arreios eram negros.

Após pouco diálogo, Arthur prometeu vingar seus companheiros e derrotar o cavaleiro negro. Os dois se envolveram numa luta furiosa. A luta foi muito árdua e não era possível distinguir qual deles sairia vencedor.

O cavaleiro negro conseguiu derrubar Arthur do seu cavalo e ambos começaram a lutar com espadas no chão. O cavaleiro negro deixou o rei muito ferido.

Em determinado momento, Arthur desferiu um golpe muito violento sobre o cavaleiro negro, e o golpe foi tão forte que sua espada, aquela que ele havia retirado da pedra, se partiu em três pedaços. Mas a luta continuou.

– Desista, Arthur – intimidava o cavaleiro negro – você já está completamente derrotado!

– Nunca! – dizia o rei Arthur, com bravura.

Para que nada pior acontecesse, o mago Merlin, com sua magia, desacordou o cavaleiro negro e tirou o rei às pressas dali.

A comitiva de Lady Guinevere, por John Collier, 1900

Como o rei Arthur estava severamente ferido, Merlin montou Arthur no cavalo e seguiu para a casa de um eremita da floresta, conhecido por Merlin e por muitos como um grande santo, capaz de realizar curas.

Ali, Arthur e Merlin ficaram por quatro dias por causa dos ferimentos do rei. No terceiro dia em que estavam lá, o eremita recebeu uma inesperada visita. Lady Guinevere, com sua comitiva, passara para visitar o eremita. Ela logo quis saber sobre o nobre cavaleiro ferido.

Foi essa a primeira vez que Arthur e Lady Guinevere se encontraram.

A moça ficou tão compadecida do cavaleiro que pediu que um de seus médicos aplicasse nele um bálsamo especial capaz de curá-lo de todas as feridas. O médico aplicou o bálsamo e, no mesmo dia, Lady Guinevere partiu da casa do eremita.

No quarto dia, totalmente restaurado, Arthur decidiu retornar novamente para confrontar o cavaleiro negro.

– E como irá duelar contra seu inimigo? Com qual espada? – indagou Merlin.

– Isso eu verei pelo caminho.

– Pois siga as minhas instruções, e você terá em mãos a mais ilustre de todas as espadas já forjadas.

A espada Excalibur, Howard Pyle, 1902

Então, Merlin e Arthur partiram para o bosque de Arroy ou, como é comumente conhecida, a Floresta da Aventura. Nela, os dois foram recebidos por um pajem em uma linda clareira, e ali foram acolhidos com um delicioso banquete.

Nos dias seguintes, finalmente chegaram a uma terra maravilhosa, numa rica e maravilhosa planície, de onde se via um grande e cristalino lago.

Bem de longe, no centro do lago, Arthur se viu encantado por algo muito maravilhoso, que nunca tinha visto antes.

No centro do lago era possível ver uma linda mão saindo da água, vestida com uma seda branca, segurando uma espada prodigiosamente bela, reluzindo ao sol. Era uma espada cujo punho era todo de ouro, revestido de pedras preciosas.

– Muitos cavaleiros morreram tentando conquista aquela espada – alertou Merlin.

– Como poderei conquistá-la?

Nisso, uma outra dama vestida de verde, caminhando na relva, veio se aproximando de Arthur. Era uma fada chamada Nimue, a principal Dama do Lago.

Arthur portou-se humildemente diante da fada, e ela explicou-lhe que somente um homem sem medo poderia empunhar aquela espada nas mãos da dama no lago, a chamada Excalibur.

Arthur, humildemente, não se achou digno de tal feito, mas Nymue pegou uma esmeralda em forma de apito mágico, e o usou para fazer aparecer um magnífico barco. Era um barco de cobre e zinco, cuja proa tinha a forma de uma mulher, com uma asa de cisne em cada lago.

O barco se aproximou de Arthur. Então, com a permissão da fada, o rei tomou o barco, que magicamente se aproximou da espada.

Com as próprias mãos, o rei Arthur empunhou Excalibur pela primeira vez. Neste momento, a mão que segurava a espada emergiu no lago, e a partir daquele momento a espada pertencia ao rei.

Merlin explicou a Arthur que a espada era tão poderosa que era capaz de cortar inclusive o aço. A bainha da espada, por sua vez, era capaz de impedir que o portador da espada tivesse qualquer ferimento.

Assim, o rei Arthur conquistou Excalibur. Em seguida, derrotou o cavaleiro negro e fez com ele uma aliança de paz, levando dois de seus filhos para a corte. Estes se tornariam famosos cavaleiros.

Veja que grande história de bravura. O rei Arthur não mediu esforços de livrar seu reino de um cavaleiro maligno, colocando em risco sua própria vida. Mesmo ficando sem a sua espada, e com terríveis ferimentos, não se rendeu ao mal, e continuou determinado em derrotar o cavaleiro negro.

Nesta aventura, após tantas perdas, Arthur conquistou a mais poderosa das espadas, conheceu sua esposa Guinevere e salvou o seu reino de um cavaleiro perverso.

Confira essa e outras incríveis histórias sobre a lenda de Arthur neste incrível edição da obra escrita por Howard Pyle: