001 – De como Zaqin chegou entre os gulabundis




Esta é a história de como Zaqin, o velho, escapou de ser devorado pelos canibais e ainda libertou os habitantes da Micronésia.

Os gulabundis era um povo dos mais desprezados do arquipélago ocidental do Oceano Pacífico. Pense num povo desprezado. Os mais miseráveis das demais aldeias se conformavam em seu orgulho por não serem gulabundis. Os próprios gulabundis tinham-se resignado em serem desprezíveis.

O maior deles não tinha 1,5 metro. Tinham todos a cor do chocolate e o cabelo amarelo da desidratação. Os homens mais vaidosos – se é que se pode dizer que houvesse algum gulabundi vaidoso – enfeitava-se com um fêmur de veado no cabelo. Todos os homens usavam uma tanga suficiente na cintura. As mulheres, uma saia de folha de palmeira. E só. É só isso que se tinha para falar dos bulagundis.

Aconteceu certa vez de um forasteiro branco chamado Wladimir chegar perdido na tribo. Ele vestia a roupa de um prisioneiro condenado, mas ninguém nunca soube sua história anterior.

Chegou como um menino amedrontado, mas, pouco a pouco, dado a passividade e ingenuidade dos gulabundis, Wladimir foi ganhando a confiança do povo.
Ensinou coisas aos gulabundis. Ensinou-lhes a pescar, e então os gulabundis pescaram para ele. Ensinou-lhes a construir casas melhores, do barro. E então construíram uma grande casa para ele. Ensinou-lhes, enfim, a lutar. Juntou os melhores e saiu em campanha aterrorizando as ilhas vizinhas.
Como ninguém esperava nada dos gulandis, foram todos pegos de surpresa e por isso foram derrotados. Assim, facilmente os gulabundis, liderados por Wladimir, dominaram a maior parte das ilhas da Micronésia.

Certa vez, após casar-se e ter um filho com uma gulabundi, deu na cabeça de Wladimir de devorar seu primeiro filho, explicando que era dever do pai devorar-lhe para adquirir sua força e prolongar a vida.

Em pouco tempo, sem que Wladimir pudesse prever, os gulabundis estavam devorando os filhos dos habitantes das tribos vizinhas, já que eles mesmos nunca haviam dado algum valor a seus próprios filhos.

A fim de organizar a matança e a selvageria, e aproveitar para manter as tribos vizinhas amedrontadas, Wladimir decretou que toda manhã um único prisioneiro seria devorado junto de um mingau de banana que serviria a todos.

O rito entrou para o cotidiano da tribo e tornou-se o terror das aldeias vizinhas. Quem libertaria as tribos da Micronésia das mãos tão terríveis e selvagens de Wladimir e seus gulabundis?

Foi numa noite úmida que surgiu das selvas, no centro da aldeia, uma figura inesperada. Era um velho tão corcunda quanto um interrogação de cabeça para baixo. O que o mantinha de pé era seu cajado alto. Seus cabelos e sua barba eram uma confusão de fios brancos, duros e quebrados, escondendo quase por completo seu rosto. O que se via era uma pele tão engelhada quanto uma noz, um nariz pontiagudo apontado para frente e uns olhos cansados sem qualquer semelhante.
Seu corpo todo era vestido por uma túnica que um dia já tinha sido branca. Talvez há centenas de anos. Mas a túnica estava coberta de uma confusão de panos e acessórios que remetiam a épocas e culturas distintas.

Talvez fosse isso que pesasse tanto naquelas costas inclinadas e fizesse de seus passos como o de alguém que caminhava numa fornalha.

Parou no centro da aldeia, na área iluminada da fogueira. Pouco a pouco, os gulabundis foram saindo de suas casas para vê-lo.

Este era Zaqin.

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