002 – De como Zaqin escapou de ser devorado na primeira manhã




Os gulabundis foram se aproximando como cãezinhos amedrontados para ver a figura exótica que havia surgido no meio da aldeia durante a noite. Wladimir saiu de seu castelinho rústico para saber o que estava acontecendo. Aproximou-se imponente do velho, mantendo aquela postura de rei dos gulabundis:

– Quem é você e o que veio fazer aqui?

– Eu sou a testemunha da miséria do mundo. Desejo ser um voluntário para suprir-los na refeição diária. Que minha vida ao menos salve uma vida, depois de ter arruinado de tantas milhares. Se o que desejam com esse gesto de devorar a vida humana é roubar-lhes a idade e a vida, ofereço-lhes todos os dias possíveis que podem almejar.

Os gulabundis ficaram todos confusos. Wladimir ficou desconfiado. Continuou:

– Pois bem. Amanhã pela manhã poderemos dar início aos preparativos. No entanto, é de boa praxe em nossa civilização dar à nossa última refeição um último pedido, para que morra feliz e assim nos recompense com o seu vigor. Diga-nos, velho homem, o que deseja, para que preparemos antes de devorá-lo pela manhã.

As vítimas dos gulabundis costumavam pedir para deitar-se uma última vez com uma moça de sua escolha, ou para comerem alguma fruta muito rara, ou coisas do gênero. Mas nunca ninguém havia pedido o que pediu Zaqin:

– Não desejo outra coisa, ó rei dos gulabundis, senão que todos ouçam as trágicas histórias de minha vida desgraçada.

Silêncio na floresta, quebrado por Wladimir:

– Queime na fogueira, velho estúpido. Que pedido mais idiota!

– Mas que desgraças são essas? – perguntou timidamente um gulabundi, escondido pela escuridão.

– São as piores de todas. Em verdade em verdade vos digo, vocês nunca conhecerão alguém com histórias tão terríveis quanto as minhas.

– Talvez possamos ouvir algumas – disse outro gulabundi, sendo timidamente apoiado por outros com pequenos grunhidos.

– Grande besteira – zombou Wladimir – desgraças, bastam as nossas!

– Os homens costumam entristecer-se com suas próprias desgraças, mas são consolados com as desgraças dos outros. Garanto que o mais desgraçado entre vocês terá orgulho da própria história depois de ouvir a minha.

– Deixem-nos ouvir só um pouquinho!

Houve alvoroço. Havia interesse geral em ouvir o velho.

“Que seja!”, pensou Wladimir, “logo todos estarão devorando esfomeados a carne podre desse velho”.

– Eu vou dormir logo. E aconselho a todos fazerem o mesmo. Pretendo acordar cedo amanhã. Não vejo a hora de devorar esse velho. Sua carne deve ser suculenta, e pensem em quantos anos vamos consumir desses ossos vividos?

Todos se recolheram. Antes do galo cantar, quando todos os gulabundis se levantaram, viram que Wladimir já estava de pé e já havia preparado o espeto em que Zaqin seria assado. O velho Zaqin estava preso a uma armação de modo que seus dois braços e suas duas pernas estavam amarradas apontadas para cima.

Acontece que toda a aldeia havia dormido pensando em qual seria a história misteriosa do velho. Por isso, todos acordaram com muita curiosidade. Ninguém pensava no mingau de banana. Sem qualquer ordem, todos se sentaram em volta da fogueira armada para Zaqin, aguardando ansiosos pela história.

Wladimir tomou a frente:

– Hoje eu acordei com uma fome de osso de velho! Eu espero que essa tal história seja bem curtinha, pois essa minha fome é bem grandona!

– Olha, não posso dizer que é uma história curta. Bem quisera! Talvez vossa majestade possa nos preparar um desjejum para que todos possam ouvir a história sem o incômodo da fome matinal.  As maiores majestades que já conheci nessa longa caminhada foram as que mais serviam aos seus súditos.

Os gulabundis todos olharam para Wladimir como crianças famintas.

– Tá decidido! – ordenou Gulilin, a esposa gulabundi de Wladimir – o rei fará o manjar e nós vamos ouvir sua história. Pode começar a falar!

Todos fizeram grande festa para Wladimir, que constrangeu-se em negar. Foi preparar o manjar engolindo o desaforo.

– Não posso prometer que será uma história agradável. Nem que será curta. Duas coisas que para os homens são de grande valor, para mim são uma grande desgraça: a vida e a memória. Eu vi o mundo quando este ainda engatinhava. Eu peguei o mundo no colo. Hoje, já não sei mais qual será a testemunha da morte do outro. Se ele a minha, ou se eu a dele. Quem tem ouvidos, ouça o que irei contar.

E assim, Zaqin começou a contar sua história aos gulabundis.

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