003 – Da vez que Zaqin conheceu o Primeiro Homem

– Em verdade vos digo – começou Zaqin a contar a sua história aos gulabundis – não existe um poço fundo de mais onde caiba toda a maldade dos homens. Nunca menospreze o quanto as coisas podem ficar pior.

Eu era ainda novo demais para entender a gravidade das coisas. Eu não deveria ter ainda nem 200 anos quando vi entrar na cidade o Primeiro Homem.

Era muito raro ele aparecer. Mas todos sabiam que era ele.

Um homem alto, levemente corcunda, com passos tristes e uma culpa no olhar tão grande que nenhum outro homem já teve igual. Naquela época, todos nos vestíamos com roupas feitas de folhas e raízes, por isso era a primeira vez que eu via um homem com roupas feitas de pele de animal. Era assim que o Primeiro Homem se vestia.

Quando ele entrou na cidade, o marceneiro parou seu trabalho, as senhoras deixaram a fofoca, os cachorros se esconderam, as crianças deixaram de correr, o artesão parou por uns instantes.

Enquanto passava por nós, em silêncio, o ar da cidade era tomado por um tom fúnebre. Não era respeito. Nem medo. Não era raiva, nem mágoa. Pelo contrário. Era uma lembrança. Quando o Primeiro Homem passou por nós, na sua triste procissão, todos olhavam para si mesmos. Nele, víamos quem éramos todos. O Primeiro Homem era uma declaração pública da nossa desgraça.

Mas naquela época eu não entendia dessas coisas. Eu era novo demais para entender a gravidade das coisas.

– Quem é ele? – perguntei sussurrando.

– É Adão, o filho de Deus. Ele veio falar com o Patriarca. Ele sabe como as coisas aconteceram.

Hoje, é claro, eu acho a curiosidade uma coisa de idiotas. Mas nessa época eu ainda nem tinha 400 anos. O que se sabe antes disso? Por isso, aquela figura me chamou muito a atenção.

O Primeiro Homem seguiu caminhando e subiu a colina, no fim da cidade, para chegar à caverna onde morava o Patriarca. Ali ficou o dia inteiro. No final da tarde, saiu de lá fazendo o caminho inverso. O mesmo silêncio. O mesmo tom fúnebre. Mas dessa vez, de seus olhos rompia um fio de lágrima limpando o rosto empoeirado.

– Pra onde ele vai?

– Ele vive a Leste do Eufrates com a Primeira Mulher e alguns outros. Eles são diferentes de nós. Nós somos filhos dos homens. Eles são filhos de Deus.

Quando ele saiu, a cidade voltou à sua rotina. Foram-se os sussurros, a tensão. Mas, a partir daquele dia, o Primeiro Homem não saiu da minha cabeça. Ele sabe como as coisas aconteceram…

Passaram-se anos e, vez ou outra, ele aparecia novamente. Sempre do mesmo jeito, por anos a fio. No entanto, embora ele continuasse o mesmo, conforme o tempo ia passando, algo ia mudando. Aos poucos, a chegada do Filho de Deus na cidade não era mais notada. Quase já não cochichavam mais. Já não iam mais parando os trabalhos. A rotina não ia sendo mais quebrada. Então passaram-se os séculos e a chegada do Primeiro Homem não era mais notada. O Primeiro Homem era o mesmo, a mesma tristeza, mas a cidade já não se incomodava mais com sua presença. Com o tempo, ele era apenas mais um. Até mesmo alguns mais ousados faziam gracejos quando ele passava, com o tipo de roupa que vestia entre outras coisas.

– Eu sei o que você é! Eu sei o que você fez! – zombou uma vez Lameque, e ria estridentemente.

Na hora certa nós iremos contar a história de Lameque.

Bom, desde aquele dia que conheci o Primeiro Homem, fiquei muito curioso com as histórias que ele tinha para contar. Meu amigo Jarede, filho de Irade, disse conhecer um homem que dizia saber muitas coisas sobre o início do mundo. Então nós fomos procurá-lo.

– O que o Filho de Deus veio falar com o Patriarca? – perguntei a ele.

– O Patriarca é filho do Primeiro Homem.

Eu me espantei. Eu ainda me espantava com as coisas.

– E por que não vivem juntos?

– É uma história terrível…

Naquela época eu não tinha muita ideia do quanto uma história poderia ser terrível. Por isso eu quis ouvi-la toda. E eu até poderia contá-la a vocês, mas veja, o dia já raiou. Penso ser melhor continuá-la na outra manhã…

Os gulabundis, que estavam todos sentados ao redor do velho nem perceberam que havia passado algumas horas.

– Sim, falou Gulilin, esposa de Wladimir – Vamos todos trabalhar que amanhã cedo você nos contará a história do Primeiro Homem e do seu filho.

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