004 – A história do Patriarca

A manhã mal despontava na floresta do arquipélago sul e os gulabundis há haviam acordado o condenado para que lhes contasse o restante da história.

– Conte-nos a história do Primeiro Homem e de seus filhos, para que devoremos você em seguida.

– Bem sei que esta história não será curta e nem agradável para ouvi-la em jejum. Talvez Wladimir devesse preparar um mingau novamente para que todos nos alimentemos enquanto a escutamos, e só depois vocês poderão me devorar como bem entenderem.

A muito contragosto de Wladimir, assim se fez, e Zaqin retornou à história.

Estávamos no casebre do homem que meu amigo Jarede disse que sabia muitas coisas sobre as primeiras coisas que ocorreram no mundo. Foi então que ele começou a contar-nos como o Patriarca havia se separado de seu pai.

– Nosso Patriarca Caim foi o Primeiro Filho homem entre os filhos do Primeiro Homem e da Primeira Mulher. Talvez por isso, ou talvez por outro motivo, era certamente o filho mais amado por eles. Os filhos de Deus, ou seja, o Varão e a Varoa, privilegiavam o Primeiro Filho de tal maneira que o Primeiro Filho tornou-se o líder dos outros irmãos.

– Ele irá resolver todos os nossos problemas – dizia a Varoa, a Primeira Mulher, a Eva, mãe de todos – ele é o meu descendente, que pisará na serpente e dará fim à Maldição Primitiva.

Os irmãos todos não sabiam ao certo o que tudo isso significava, mas sabiam que se tratava de algo com o Criador de todo o mundo, o Pai do Varão, do Primeiro Homem, de Adão, pai de todos.  Assim, o Primeiro Homem e a Primeira Mulher ensinavam aos outros irmãos a prestar-lhes especial reverência.

O Patriarca foi o primeiro lavrador. O Varão ensinara-lhe tudo, os nomes de todos os animais e a arte de cuidar da terra, mas o Patriarca desenvolveu-se com o trabalho com a terra, que honrava sua força. Construiu várias lavouras e muitos os seus irmãos trabalhavam para ele. Quando ele chegava do estafante trabalho, a Grande Família se reunia em volta de Caim. O próprio Varão olhava para o filho com especial admiração e expectativa.

– Ele vai consertar o que eu quebrei – ele dizia, sem maiores explicações.

Acontece que um de seus irmãos, que foi chamado de “Aquele que viveu como uma brisa”, começou a tributar ao Criador da mesma maneira que o Patriarca havia ensinado, e não do jeito de Caim. Diferente do Patriarca, que tributava dos seus melhores frutos da terra, Brisa, que era pastor de ovelhas, tão imundo quanto todos os que criam ovelhas, ofereceu ao Criador um cordeiro morto. Acontece que o cordeiro de Brisa foi aceito, mas o do Patriarca não foi aceito.

Caim não tolerou a injustiça. “O que faz um pastor de ovelhas? Fica de papo para o céu e nada mais. O lavrador, sim, era digno de ser aceito pelo Criador, pois ele, sim, trabalhava duro”.

– É necessário um sacrifício de sangue puro – Brisa tentou explicar ao irmão. Não é possível consertar as coisas sem sacrifícios de sangue.

Caim não ouviu o irmão. Sua mente e seu corpo foram tomados de uma fúria incontrolável.

“Sacrifício faço eu todos os dias com o suor do meu rosto, lutando contra a terra…” dizia a si mesmo, enquanto caminhava nervoso.

Quando os outros irmãos souberam que o Criador havia aceitado o sacrifício de Brisa e rejeitado o de Caim, a autoridade do Primeiro Filho foi questionada e a fúria dele só foi crescendo.

Dia após dia, suado, ele fere a terra com o instrumento de madeira, mas seus punhos e seus olhos pensavam em Brisa.

Um plano desastroso começou a surgir em seus pensamentos, mas creio que não temos mais tempo. Vejam, o dia já raiou e todos precisam realizar seus afazeres diários. Quem sabe na outra manhã eu não possa concluir essa história?

E todos os gulabundis foram realizar suas tarefas diárias.

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