005 – O Patriarca dá ouvidos ao Serpente

Na manhã seguinte, Zaqin acordou de seu sono ainda dependurado naquele varal sobre a fogueira que ainda não tinha sido acesa. Acordou por causa do cheiro de mingau que já estava pronto, preparado pelo Wladimir, que foi o primeiro a acordar.

– Agora conte-nos o que aconteceu ao Patriarca! – ordenou Gulilin.

– Esta é a história de Caim e Abel, o Brisa, que aquele homem que me foi apresentado por meu amigo Jarede contou, quando eu ainda era muito garoto.

O Patriarca estava tomado de ódio por seu irmão Brisa, e já não tolerava ouvi-lo falar, ou sequer olhar para ele.

Certa noite, porque não desejava ver o irmão, acampou na sua plantação, quando o Serpente lhe apareceu.

– O que faz em minha colheita, Serpente maldita!

– Acaso ssssssou mais maldita que ssseu pai Adão? – perguntou insolentemente o Serpente, que rastejava no barro.

– Do que você está falando? O que sabe sobre eles?

– Ah, Caim, sssssei menos do que você! Cssssertamente sssssó você ssssabe a injustiçsssssa do Criador quando ama mais a ssssseu irmão do que a vosssscê – continuou o réptil, dissimulado – logo você, que trabalha tão arduamente para ssservir à família. Acaso não era você que ia conssssertar as coisassss?

– Sim, sou eu! Vou destruir você e acabarei com a maldição!

– Oh… foi isssssso o que lhe contaram? – fingiu-se surpreso – É claro… ssseu pai Adão nunca lhe contaria a verdade completa… ssss… Talvez para Abel tenha contado…

– Do que você está falando? Diga-me logo ou esmigalho sua cabeça com minha enxada!

– Ah, Caim… como você é ingênuo… Você não sssabe que os ssseus sacrifícios não consssertam as coisas? As coisas estão deste jeito por causa de ssseu pai Adão. Ele nunca te contou? É tudo culpa dele! Ele trouxssse maldição para todos nósssss… Ele se voltou contra o Criador e agora o Criador nos violenta com terríveis ssssofrimentos. É claro que Adão não contaria isssso a você… ele ama mais a Abel. Todos amam mais Abel…

Caim explodiu em raiva e ameaçou atirou a enxada no Serpente, mas não acertou.

– Abel é um tolo e um preguiçoso! Ele não merece!!!

– É Claro! sss… Só há um jeito, Caim. Adão trouxe maldiçsssão e é o sssacrifício de sangue de Adão que consssertará as coisas… Você precisa conssertar as coisasss. Ofereça o ssangue de Adão e consserte tudo! Você tem o poder. Você tem a força! Todos o amarão novamente… Obtenha de volta o que é sssseu!

– Mas como… não posso derramar o sangue do meu próprio pai…

– Penssse, Caim… pense… o sangue de Adão não corre somente em Adão…

Caim e Abel – por James Tissot

O Serpente se foi. Caim não conseguiu mais dormir. Andava de um lado para o outro, completamente perturbado, gritando e esfolando o ar com as próprias mãos. Havia uma fúria muito grande em seu peito e ele não sabia contra quem. Se era contra o seu pai, se era contra seu irmão…

Pela manhã, bem cedo, enquanto Abel se dirigia para o pasto, Caim o esperava no caminho.

– Abel – chamou o irmão.

– Irmão! Você não foi à colheita?

– Hoje não. Hoje desejo passar mais tempo com você. Queria aprender um pouco mais sobre o trabalho de um pastor de ovelhas.

A voz de Caim era sombria, os olhos estavam fundos da noite mal dormida, as mãos e os cabelos ainda estavam sujos dos trabalhos do dia anterior.

– Que bom, meu irmão. Hoje mesmo eu iria separar o meu melhor cordeiro para oferecer ao Criador. Você pode oferecê-lo comigo.

– Claro, irmão. Eu o farei.

E eles caminharam juntos.

– Sabe, irmão Caim, venho há algum tempo querendo falar com você.

– Estou ouvindo.

– O pai Adão falou-me sobre como eram as coisas antes… falou-me sobre o Criador… Venho pensando, e acho que as coisas não são como pensávamos…

– É mesmo, meu irmão… conte-me mais…

– Sabe, não acho que você seja aquele que vai consertar as coisas. Isso não é possível. Tem que ser alguém muito melhor para fazer isso… Não estou dizendo que você não seja um bom homem… mas é que a maldição é muito profunda e apenas um sacrifício puro poderia consertar as coisas.

– Eu estou entendendo, querido irmão… Papai também contou-lhe sobre como a maldição chegou até nós?

– Sim, contou-me. Pobre homem… está cheio de culpa…

A ira de Caim estava incontrolável…

– Não me leve a mal, irmão Caim… Mas você não é o filho de Eva que irá consertar as coisas… Nós temos que esperar pelo Criador…

Os punhos de Caim apertavam o instrumento de madeira em suas mãos.

– O Criador deseja que o sacrifício seja de sangue e não um fruto da terra… precisamos confiar no que o Criador nos ordenou…

Os dentes de Caim rilhavam… o corpo tremia…

O que aconteceu depois é tão terrível que eu não poderia contar-lhes nesta hora do dia ou ninguém ia conseguir trabalhar – finalizou Zaqin – é uma pena ter que adiar ainda mais um dia o vosso banquete de meus fracos músculos.

E com isso, os Gulabundis continuaram seus afazeres do dia.

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