006 – O encontro com o Primeiro Homem




O cheiro do mingau já visitava todas as narinas gordas dos gulabundis e o narigão engelhado de Zaqin, quando toda a aldeia sentou-se num grande círculo em volta do velho, interessados no que Caim faria a Abel. Exceto Wladimir, que estava com os braços cruzados e com um bico desse tamanho.

– Eu refleti sobre a terrível história do que ocorrerá ao Patriarca e ao Brisa, que foi me contada pelo conhecido de meu amigo Jarede, num tempo imemorial. Assim considerei que, antes de concluí-la, preciso contar-lhes outra versão da história que o Serpente contou a Caim, para vocês não dizerem que ando privilegiando os relatos e que conto apenas uma única versão da história.

Essa foi a versão que ouvi dos lábios do Primeiro Homem, muitos anos depois. Eu a ouvi depois de ficar recluso numa caverna por conta de algo terrível que me acontecera, a mim e ao meu amigo Jarede. Era um daqueles dias em que o Primeiro Homem subira para falar com o Patriarca. Eu o encontrei por acaso, alterado, com um fio de lágrima escorrendo. Então fui ao seu encontro. Finalmente tinha achado coragem.

– Espere, por favor – chamei. Naquela época eu ainda falava por favor.

O Primeiro Homem não parecia ter alma mais. Seus olhos eram marcados por uma culpa sem igual. Virou-se para mim.

– Que queres, filho de homem?

– Você é mesmo filho de Deus? – perguntei mais com ingenuidade que com ousadia.

– À imagem e semelhança dele.

– E onde ele está? Por que as coisas estão como estão? – eu perguntei revoltado. Eu tinha meus motivos, os quais contarei logo logo.

Nessa hora, o filho de Deus largou-se sentado numa pedra e começou a chorar copiosamente.

– Ninguém é mais desgraçado do que eu – ele disse.  E eu ouvia, mas se fosse hoje, eu riria dele, dizendo: Adão, eu rio de sua desgraça…

Mas na época, como eu ainda sofria uma dor sem fim no meu peito por causa do que havia acontecido, senti compaixão do homem. Naquela época eu ainda sentia essas tolices…

– Por favor, filho de Deus. Conte-me o que sabe. Alivia minha dor. Patriarca era mesmo a nossa última esperança de consertar as coisas?

O Varão olhou-me espantado como se não esperasse que eu soubesse algo sobre esperança. Recomposto, disse:

– As coisas não eram para ser assim, pobre filho do homem, disse-me ele, com seu fio de lágrimas agora mais espesso – sente-se, vou contar-lhe o que sei.

E o Primeiro Homem contou-me o que sabia sobre a criação do mundo. Mas agora poderia contá-los, nessa hora da manhã? Não se preocupem comigo, vosso banquete estará com o mesmo sabor amanhã pela manhã.

E os gulabundis foram dormir mais uma vez.

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